
A decadência da mentira é um ensaio de Oscar Wilde que foi publicado em 1891.
Wilde põe em cena dois personagens que dialogam sobre arte: Viviano e Cyrillo.
Viviano apresenta ao amigo algumas das idéias que compõem um artigo que está a escrever e cujo nome é "A decadência da mentira"*:
Uma das causas principais da banalidade de quase toda literatura atual é certamente a decadência da mentira considerada como uma arte, uma ciência e um prazer social. Os antigos historiadores apresentavam-nos deliciosas ficções sob a forma de fatos; o moderno romancista oferece-nos fatos estúpidos à guisa de ficções.
Wilde põe em cena dois personagens que dialogam sobre arte: Viviano e Cyrillo.
Viviano apresenta ao amigo algumas das idéias que compõem um artigo que está a escrever e cujo nome é "A decadência da mentira"*:
Uma das causas principais da banalidade de quase toda literatura atual é certamente a decadência da mentira considerada como uma arte, uma ciência e um prazer social. Os antigos historiadores apresentavam-nos deliciosas ficções sob a forma de fatos; o moderno romancista oferece-nos fatos estúpidos à guisa de ficções.
(...)
Dificilmente se avaliaria o dano que faz à literatura o errôneo ideal da nossa época! Tem-se uma maneira desprezível de falar do "mentiroso nato e do poeta nato". Em qualquer dos casos, é um detrimento. A mentira e a poesia formam artes - artes que, como Platão entendia, têm a sua conexão e requerem o estudo mais atento, a mais desinteressada devoção. Possuem a própria técnica, como a pintura e a escultura - mais materiais - têm seus sutis segredos de forma e de cores, seus toques de mão e métodos refletidos. Reconhece-se o poeta pela sua bela música e o mentiroso pelos seus ricos e ritmados excessos - aos quais não bastaria em caso algum a inspiração temerária do momento; nisto, como em tudo, a perfeição é precedida pela prática. Hoje, porém, enquanto a moda de fazer versos vai se tornando excessivamente comum e deve ser arrefecida, a de mentir quase cai em descrédito. Mais de um jovem começa a vida com um dom exagerativo natural. Se o educam em círculos simpáticos e do mesmo espírito, ou pela imitação dos melhores modelos, pode-se tornar qualquer coisa de grande, de prodigioso. Em geral, porém, o jovem não alcança coisa alguma. Ou cai em negligentes hábitos de exatidão, ou começa a frequentar os velhos e bem-informados. Uma ou outra alternativa é fatal à sua imaginação, como aliás seria à imaginação de quem quer que seja. Em pouco tempo adquire a malsã, a mórbida faculdade de dizer a verdade: começa a verificar todas as afirmações feitas em sua presença, não hesita em contradizer os mais moços, e muitas vezes acaba por escrever romances tão fiéis à vida que perdem toda verossimilhança.
Aí está um exemplo que, longe de ser o único, é tomado entre muitos outros. E se nada pode reprimir, ou, ao menos, modificar essa monstruosa idolatria do fato, a Arte tornar-se-á estéril e a Beleza desaparecerá da terra.
* Utilizamos aqui a tradução de João do Rio (Imago, 1994)
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